Muitas vezes, no auge do cansaço, pedimos um fim. Mas se você pudesse realmente dialogar com a Morte no instante em que ela atendesse ao seu chamado, o que você diria? Entre o desejo de alívio e o pavor do fim, existe uma linha tênue que La Fontaine descreveu com perfeição.

O que vou narrar para vocês hoje não é apenas uma fábula; é um espelho da alma humana.

Você tem coragem de ver o reflexo de sua própria imperfeição?

Um pobre lenhador, vergado pelo peso dos anos e da lenha, que às costas trazia, caminhava gemendo, no calor do dia, sentindo por si próprio o mais cruel desprezo. A dor, por fim, foi tanta que ele até parou e, pondo ao chão seu fardo, pôs-se a refletir: que alegrias tivera em seu pobre existir? Depois de tanta vida, algum prazer restou? Faltara, às vezes, pão; descanso, nunca houvera; os filhos, a mulher e o cobrador, à espera; o imposto e a cara feia do soldado… ele era um infeliz, completo e acabado! Pensando nessa falta de alegria e sorte, chamou em seu auxílio a Morte. — “Vosmecê me chamou, e eu vim. Agora venha.” — “Só te chamei pra me ajudar com a lenha…” A morte tudo conserta, mas pressa não deve haver, pois a sentença é bem certa: antes sofrer que morrer.

A reflexão proposta por La Fontaine pode parecer simples: viver, ainda que em estado de extremo sofrimento, ainda é melhor que morrer.

Mas não seria este um dos maiores duelos mentais, que pode conduzir milhares de pessoas em todo o mundo para atitudes de autoextermínio?

Sofrer ou morrer, eis a questão!

O lenhador não carregava apenas madeira; carregava o peso de uma existência que parecia ter dado errado. Cada passo era um lamento contra o cobrador, contra a fome e contra o próprio corpo, que já não obedecia como antes. Quando ele jogou o fardo no chão e clamou pela Morte, ele não buscava o fim, buscava o silêncio. O alívio, que muitos acreditam vir com a morte de nosso corpo físico.

É fácil flertar com o abismo quando os olhos estão nublados pelo cansaço. A Morte, porém, é uma visita que não entende de metáforas. Quando ela apareceu — gélida, certa e definitiva — o lenhador percebeu o equívoco de sua pressa. Desejar a morte é diferente de encontrá-la e, principalmente, de poder tentar argumentar com ela.

A questão que fica no ar, e que nos faz refletir, é o verso final da fábula: “antes sofrer que morrer”. À primeira vista, parece uma aceitação masoquista da dor. Mas, olhando mais de perto, é o maior manifesto em favor da vida. O sofrimento, por mais agudo que seja, é um estado. E tudo o que é estado pode ser transitório. Enquanto o lenhador respira, ele ainda pode encontrar uma sombra fresca, o sorriso de um neto ou, quem sabe, uma nova forma de carregar sua lenha. O sofrimento é uma página difícil, mas a morte é o livro fechado. Uma vez finalizado, não se consegue mais reescrever o final. As páginas são lacradas e nada mais pode ser feito. O velho, ao pedir ajuda à morte para colocar a lenha de volta nos ombros, é o reconhecimento de que o fardo da vida, por mais pesado que seja, ainda contém a semente da possibilidade. Ele tentou negociar com a morte, pois, ao se deparar com sua face, decidiu que ainda queria tentar, depois que viu o fim diante de si. E pelo que viu, preferiu arriscar a sorte com a vida. Seja por medo, seja por fé, seja até mesmo pelo seu instinto de sobrevivência, ele escolheu a dor, que pode mudar, em vez da falsa sensação de alívio que a morte pode insinuar. Viver, mesmo no sofrimento, é manter a porta aberta para o imprevisto. É entender que, a qualquer instante, algo pode mudar. É entender que, neste plano, a última palavra ainda não foi dita. A morte traz a conclusão de uma história que, por pior que fosse, ainda era nossa para ser contada. A vida nos pertence, mas quando a morte chega, somos entregues a ela. Independentemente de nossas religiões, e de nossas crenças pessoais sobre a finitude ou não da vida, viver continua sendo a melhor escolha. Sei que existem estados de sofrimento tão intensos que não é possível entender que exista outra alternativa além da morte. Um suicida nunca busca a morte, busca alívio. Libertar-se do sofrimento extremo a que muitos somos submetidos. Seja como for, se pudéssemos conversar com a morte, argumentar com ela, creio que todos lutaríamos por viver. La Fontaine disse: “antes sofrer que morrer”, correto? Mas a vida não apresenta somente essas duas alternativas. E se ser feliz for uma opção?

André Mansur Brandão
Advogado e Escritor

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