Amor Impossível
Durante anos, ele foi o operário dos milagres dela. Se ela desejava o impossível, ele o fabricava; se ela sentia frio, ele incendiava o próprio mundo para aquecê-la. Ele vivia sob a tirania da entrega, movido pelo medo visceral de que, se parasse de prover, ela deixaria de existir — ou pior, deixaria de amá-lo.
Mas o cansaço havia chegado ao osso. Ele sentia que não restava mais nada para oferecer. Naquela noite, ao vê-la na varanda olhando fixamente para o céu, ele sentiu um pavor que nunca conhecera. Viu a Lua imensa, pesada e prateada, e pensou: “Se ela me pedir a Lua, eu morrerei. Não tenho mais forças para carregar o mundo nas costas.”
O golpe veio em forma de sussurro.
— Aquela ali — disse ela, apontando.
Ele seguiu o gesto. O dedo dela ignorava a Lua opressora e focava em uma estrela minúscula, um ponto pálido e remoto perdido na vastidão negra.
O alívio que ele sentiu foi devastador. Ele não ficou apavorado; ficou em êxtase. Na sua lógica distorcida pela exaustão, a estrela parecia leve porque era pequena. Ele preferia o abismo da distância ao peso da matéria. Rindo como um homem que acaba de ser absolvido, ele beijou as mãos dela e partiu.
Ele começou a escalar a montanha mais alta, acreditando que a proximidade física o levaria ao objeto do desejo dela. Escalou até que o ar faltasse, até que o gelo queimasse sua pele e o silêncio do mundo fosse absoluto. Ele subiu buscando o brilho, sem entender que estava mergulhando no vácuo.
Ele nunca mais voltou.
O fim dele não foi um ato de heroísmo, mas um aviso sombrio. Ele se perdeu nas alturas porque esqueceu uma verdade fundamental: o amor não é entrega total. O amor é respeitar os limites, inclusive os limites de quem se propõe a amar sem limites.
Enquanto ele se tornava parte do gelo da montanha, ela continuava na varanda, os olhos fixos na estrela, sem notar que o único coração que batia por ela havia se calado na tentativa de lhe dar o que ninguém deveria pedir.


