Davos abre as portas como quem abre um cofre: neve na vitrine, bilionários no salão, diplomatas no corredor, CEOs com cara de quem “veio salvar o mundo” — desde que o mundo aceite a cláusula de rescisão e pague em dólar.
Lá dentro, dizem que se decide o futuro da humanidade.
E talvez se decida mesmo.
Porque o mundo moderno não é mais governado apenas por leis, constituições e parlamentos. Ele também é governado por apresentações em PowerPoint, painéis com nomes grandiosos e frases que soam como títulos de TED Talk: “O amanhã sustentável”, “A nova ordem tecnológica”, “Segurança global em tempos incertos”. Tudo muito sério. Tudo muito urgente.
Só que, do lado de fora — e, muitas vezes, do lado de dentro também — o que realmente ferve não é o “destino da civilização”.
É o acessório.
O acessório.
Em meio a tensões geopolíticas, guerras com nome e guerras sem nome, inflação, migrações em massa, colapso climático, inteligência artificial avançando com a delicadeza de um trator e potências ensaiando discursos imperialistas com a naturalidade de quem pede café… a internet achou uma causa maior:
os óculos do presidente da França.
Sim: os óculos.
Não era sobre o planeta. Era sobre o modelo.
Não era sobre soberania. Era sobre a armação.
Não era sobre direitos humanos. Era sobre o “estilo”.
Macron apareceu de óculos escuros em ambiente fechado. O suficiente para acender o fogo sagrado da humanidade: o tribunal do ridículo, o culto à estética, o vício em superfície. De repente, Davos virou passarela.
E o mundo — esse mesmo mundo que passa o ano chorando por líderes “carismáticos”, “fortes”, “inspiradores” — encontrou um novo motivo para existir: comentar se ele estava parecendo o Tom Cruise, se era arrogância, se era pose, se era marketing, se era “mensagem cifrada”.
A verdade, quase sempre, é infinitamente menos glamourosa.
Dizem que era para esconder um problema no olho. Uma hemorragia subconjuntival. Algo banal. Algo humano. Algo que não combina com o teatro da perfeição.
E isso é o que dói: um líder tem mais permissão para parecer um personagem do que um homem com um olho irritado.
Porque a humanidade, hoje, aceita qualquer coisa — menos o ordinário.
Qualquer coisa — menos o real.
Qualquer coisa — menos a humanidade.
O século XXI é a era em que o acessório vale mais do que o assunto. Em que a embalagem tem mais audiência do que o conteúdo. Em que a gravata, o relógio, o sapato, o corte de cabelo e a armação dos óculos são julgados com mais paixão do que decisões que interferem em milhões de vidas.
E então você pergunta, com uma lucidez quase inconveniente:
Será que esse culto à futilidade não é um dos motivos pelos quais a humanidade não está indo nada bem?
É.
Porque futilidade não é só frivolidade.
Futilidade é distração organizada.
É a anestesia coletiva do pensamento.
É o circo sem precisar de pão — porque já viciaram o público no picadeiro.
Enquanto alguns em Davos falam em “novas arquiteturas globais”, “reposicionamento estratégico”, “reengenharia das cadeias produtivas”, “modelos de governança planetária” — termos que, traduzidos, muitas vezes significam: “vamos mandar mais, controlar mais, lucrar mais e chamar isso de responsabilidade” — a massa discute… óculos.
E não se engane: isso não é culpa apenas “do povo”.
É projeto.
Quanto mais a sociedade se apaixona pela espuma, menos ela questiona a água.
Quanto mais ela debate o figurino, menos ela percebe o roteiro.
Quanto mais ela idolatra a estética, menos ela exige ética.
O culto à futilidade é a versão moderna da mordaça: não tapa a boca, mas ocupa a mente.
Porque, no fim, é isso que Davos revela — mais do que qualquer pauta nobre:
o mundo está cheio de gente dizendo que vai decidir o futuro…
e um exército de espectadores treinado para prestar atenção no detalhe errado.
O futuro da humanidade pode até ser discutido em Davos.
Mas ele é perdido, todos os dias, no feed.
Perdido no comentário rápido.
No meme.
No recorte.
Na manchete.
Na vaidade de ter opinião sobre o irrelevante — enquanto o essencial passa, sorrindo, pela porta de serviço.
E quando tudo der errado — porque uma hora dá — a mesma humanidade que comentou os óculos vai perguntar, perplexa:
— “Como chegamos aqui?”
Chegamos assim:
fazendo do acessório um altar, e do essencial um ruído.
Davos é só um espelho.
O reflexo não é do Macron.
É nosso.
E fica a pergunta final — a pergunta que dói, porque denuncia:
será que o futuro da humanidade passa pelos óculos de Macron… ou apenas pela armação?


