Tenho acompanhado, com interesse quase científico, uma transformação importante na literatura contemporânea. Não sei exatamente em que momento o livro deixou de precisar de um bom título e passou a precisar de um palavrão, mas alguma coisa aconteceu entre a seção de autoajuda e o departamento de marketing. Houve um tempo em que as livrarias nos ofereciam obras sobre felicidade, equilíbrio, prosperidade, amor, disciplina, inteligência emocional e outras coisas que ninguém alcançava, mas pelo menos eram pronunciáveis diante das crianças. Agora você entra numa livraria e tem a impressão de que interrompeu uma briga de bar: A Sutil Arte de Ligar o Foda-se. Fodeu Geral. Seja Foda. Enfodere-se. Resolva a Porra dos Seus Problemas. Como Parar de se Sentir uma Merda. É uma experiência cultural intensa. Se você permanecer tempo suficiente diante da estante, talvez algum livro mande você pessoalmente tomar no cu.
Antes que alguém me acuse de conservadorismo linguístico, aviso que não tenho nada contra palavrão. Pelo contrário. Palavrão é uma das mais eficientes tecnologias já desenvolvidas pela humanidade. Economiza palavras, tempo e, em determinadas circunstâncias, até agressões físicas. Um motorista fecha você no trânsito e dificilmente haverá vantagem prática em abrir o vidro e gritar: “Prezado senhor, considero sua condução automotiva incompatível com os princípios mínimos de urbanidade”. Um palavrão resolve o assunto em três sílabas e ainda sobra tempo para buzinar. O palavrão tem função. O que me causa estranheza é quando deixa de ser interjeição e se transforma em filosofia de vida.
Foi aí que surgiu essa sofisticada escola existencial do ligar o foda-se. A ideia, pelo que compreendo, é simples: devemos deixar de atribuir importância excessiva àquilo que não merece nossa energia. Nada de propriamente revolucionário. Minha avó já fazia isso sem livro, palestra, podcast, curso on-line, newsletter nem canal no YouTube. Provavelmente chamava de “não dar confiança”. Mas faltava marketing. “A Sutil Arte de Não Dar Confiança” certamente venderia alguns exemplares. “A Sutil Arte de Ligar o Foda-se” vende milhões. O conteúdo pode até ser semelhante; a diferença é que o segundo parece ter sido escrito depois de quatro cervejas.
Enquanto refletia sobre essa filosofia, tive uma revelação zoológica.
O boi.
Sim, o boi.
Passei a considerar o boi talvez o mais antigo mestre conhecido da filosofia do foda-se. Muito antes de qualquer escritor transformar indiferença em best-seller, o boi já praticava sua versão mais radical, orgânica e absolutamente despretensiosa: cagava e andava.
E não há metáfora mais perfeita.
Observe um boi. Ele não publica frases motivacionais. Não possui perfil profissional. Não precisa demonstrar desapego. Não escreve trezentas páginas ensinando ninguém a ignorar o julgamento alheio. Ele simplesmente segue seu caminho. Come, rumina, olha vagamente para o horizonte e, diante das complexidades da existência, oferece ao mundo aquilo que poderíamos chamar de resposta bovina definitiva: caga e anda.
Literalmente.
O boi é, portanto, a versão semovente do “ligar o foda-se”.
Mais do que isso: talvez seja sua versão superior. Porque o boi não precisa anunciar que cagou e andou. Essa é uma diferença importante. O verdadeiro desapego não publica stories sobre seu desapego. Não escreve “não me importo com o que pensam de mim” seis vezes por semana para cinquenta mil pessoas cuja opinião, teoricamente, não lhe interessa. O boi não pede curtidas depois de defecar. Não fotografa o resultado. Não escreve embaixo: “Só quem vive sabe.”
Ele caga.
E anda.
Talvez tenhamos complicado demais uma sabedoria que o gado domina há milênios.
Imagino, inclusive, que se algum boi pudesse ler A Sutil Arte de Ligar o Foda-se, terminaria a primeira página, olharia para o autor com aquela expressão bovina profundamente filosófica e pensaria: “Trezentas páginas para explicar isso?”
Depois cagaria.
E andaria.
Mas nós, humanos, temos essa necessidade de transformar comportamentos elementares em teorias sofisticadas. Dormir tornou-se “higiene do sono”. Respirar virou “breathwork”. Ficar alguns minutos calado virou “mindfulness”. Organizar uma agenda passou a ser “gestão estratégica do tempo”. E não se importar com bobagem virou uma filosofia com palavrão na capa. Se continuarmos nesse ritmo, em breve algum empreendedor lançará um método revolucionário chamado Movimentação Bípede Consciente, que consistirá basicamente em andar até a padaria.
Não duvido também de que esteja chegando o momento da profissionalização acadêmica do foda-se. Teremos cursos de extensão em Desapego Estratégico, MBA em Fodologia Aplicada, pós-graduação em Gestão Avançada do Cagar e Andar e, naturalmente, certificação internacional em Enfoderamento Executivo. As empresas contratarão consultorias especializadas para ensinar seus funcionários a ligar o foda-se de maneira alinhada aos valores corporativos. Haverá indicadores. Metas trimestrais. Talvez até um KPI do Foda-se, medindo quantos problemas irrelevantes foram ignorados por colaborador.
Imagino a convenção anual:
— Nossa equipe aumentou em 37% o índice de cagação e deslocamento.
Aplausos.
— Excelente. Mas precisamos melhorar o foda-se no terceiro trimestre.
Alguém fará um PowerPoint.
Tudo isso seria apenas engraçado se não revelasse um pequeno paradoxo. Quanto mais alguém precisa anunciar que não se importa, maior a suspeita de que se importa bastante. O verdadeiro indiferente não veste uma camiseta dizendo NÃO ESTOU NEM AÍ. Ele está em casa. Provavelmente dormindo. Quem realmente ligou o foda-se não precisa comunicar ao mundo que ligou o foda-se porque — eis aqui um problema lógico considerável — para comunicar isso ao mundo seria necessário importar-se com o fato de o mundo saber que ele não se importa.
O boi, novamente, vence.
Sempre o boi.
Há ainda a questão editorial. Imagino um jovem escritor chegando a uma grande editora com um manuscrito de quatrocentas páginas sobre os dilemas da existência humana.
— Qual é o título? — pergunta o editor.
— Reflexões Sobre a Busca da Felicidade no Mundo Contemporâneo.
O editor fecha os olhos, consternado.
— Meu filho, você quer vender livro ou prestar concurso para professor de filosofia?
— Pensei também em Os Caminhos da Serenidade.
— Piorou.
Entra então o responsável pelo marketing, atrasado para a reunião, tomando café num copo de papel.
— Sobre o que é o livro?
— Sobre escolhas, autocontrole e serenidade.
Ele pensa por quatro segundos.
— Pare de Fazer Merda e Viva, Porra!
Silêncio.
O editor se levanta lentamente.
Abraça o homem.
Oferta de direitos para vinte países.
Netflix interessada.
Audiolivro narrado por alguém com voz grave.
Pré-venda aberta.
O escritor, evidentemente, fica emocionado. Afinal, trabalhou seis anos em seu tratado filosófico e finalmente descobriu que faltavam apenas duas palavras: merda e porra.
Minha crítica, portanto, não é ao palavrão. É à sua industrialização. A diferença é importante. Um palavrão bem colocado pode ser extraordinariamente expressivo. Mas existe uma distância enorme entre usar um palavrão porque o texto exige e colocar um palavrão na capa porque uma planilha de vendas recomenda.
Palavrão é como pimenta. Uma pequena quantidade pode transformar o prato. Se você despejar o vidro inteiro, depois de algum tempo não existe mais sabor. Existe apenas ardência.
Com a literatura parece estar acontecendo algo parecido. A irreverência tornou-se tão padronizada que começou a parecer comportada. Todo mundo está sendo rebelde exatamente da mesma maneira. Todos são ousados conforme o manual. Todos mandam o leitor se foder dentro dos padrões gráficos definidos pela editora, respeitando fonte, margem, identidade visual e previsão de faturamento.
É a rebeldia com código de barras.
Talvez daqui a alguns anos aconteça uma grande revolução editorial. Um escritor desconhecido publicará um livro chamado Pense Antes de Agir.
Escândalo.
Outro lançará Seja Educado.
Polêmica nacional.
Um terceiro, ainda mais radical, ousará escrever:
Nem Tudo Precisa Ser um Palavrão.
Será imediatamente retirado das prateleiras por excesso de subversão.
Eu, porém, sou um homem atento às tendências do mercado. Não pretendo ficar fora dessa festa editorial simplesmente por preconceito estético. Depois de muito refletir, decidi abandonar minhas resistências e ingressar definitivamente na literatura escatológica.
E pretendo entrar grande.
Não vou escrever A Sutil Arte de Ligar o Foda-se. Já fizeram.
Não escreverei Fodeu Geral. Também fizeram.
Não escreverei Seja Foda, Enfodere-se, Resolva a Porra dos Seus Problemas nem Como Parar de se Sentir uma Merda.
Acredito em eficiência.
Vou sintetizar toda essa escola filosófico-editorial em apenas um título:
VAI TOMAR NO C...
Pronto.
Economizei milhares de páginas.
Nesse único título consigo reunir o foda-se, a porra, a merda, o enfoderamento, o desapego, o desenvolvimento pessoal e, dependendo da interpretação do leitor, até um discreto convite à atividade física.
Com alguma sorte, será traduzido para quarenta idiomas, vendido em aeroportos, recomendado por executivos, adotado por coaches e transformado numa palestra TED.
Vai tomar no c... — sete princípios para uma vida extraordinária.
Já consigo imaginar a capa.
E, se tudo correr bem, espero finalmente escrever um best-seller mundial sobre aquilo que talvez seja a mais importante contribuição de nosso tempo às letras:
a literatura escatológica e a diarreia verbal.
Quanto ao boi?
O boi provavelmente continuará fazendo aquilo que sempre fez.
Sem editora.
Sem podcast.
Sem curso.
Sem best-seller.
Cagando.
E andando.
