Tenho acompanhado, com uma mistura de perplexidade, curiosidade antropológica e certo receio de entrar numa livraria desacompanhado, uma tendência editorial que parece ter conquistado definitivamente as prateleiras: o palavrão motivacional. Houve um tempo em que os livros prometiam ensinar a pensar, enriquecer, amar, compreender o universo, administrar empresas, criar filhos, salvar casamentos ou, no mínimo, fazer um risoto decente. Hoje, aparentemente, para vender alguns milhões de exemplares basta colocar um palavrão na capa, acrescentar embaixo alguma promessa de transformação pessoal e esperar que o leitor se sinta corajosamente transgressor enquanto passa o cartão de crédito em seis vezes sem juros.
Não tenho nada contra palavrões. Seria hipocrisia. Palavrão, usado no momento certo, é uma extraordinária ferramenta de comunicação. Há situações na vida para as quais o idioma português, apesar de Camões, Fernando Pessoa, Machado de Assis e Guimarães Rosa, infelizmente não encontrou solução melhor. Você bate o dedinho do pé na quina de um móvel às três da manhã e dificilmente reage com: “Que lamentável intercorrência doméstica”. Há momentos em que um palavrão é não apenas adequado, mas praticamente uma exigência gramatical. O que me incomoda é sua transformação em método filosófico, estratégia editorial e, principalmente, promessa de iluminação espiritual.
Foi assim que chegamos a A Sutil Arte de Ligar o Foda-se. Confesso que sempre achei fascinante a combinação. A arte é sutil, mas o título entra na sala chutando a porta. É como anunciar um tratado chamado A delicada arte de quebrar sua cara. O sucesso foi tamanho que, naturalmente, vieram outros. Fodeu Geral. Seja Foda. Enfodere-se. Como Parar de se Sentir uma Merda. Resolva a Porra dos Seus Problemas. Você vai percorrendo a seção de desenvolvimento pessoal e começa a desconfiar de que entrou, por engano, numa discussão de trânsito.
O curioso é que todos esses livros pretendem, em maior ou menor grau, melhorar você. Esta talvez seja a grande evolução da autoajuda contemporânea: antigamente, ela acariciava o leitor. Hoje, ela dá uma bronca. Antes dizia: “Você pode vencer”. Agora parece dizer: “Levanta essa bunda e vai vencer, porra”. Evidentemente, o segundo método deve funcionar melhor. Talvez estejamos diante de uma descoberta importante da psicologia comportamental: o ser humano não precisava de autoestima. Precisava apenas de alguém suficientemente agressivo na capa do livro.
Imagino a reunião de uma editora. Entra um escritor tímido carregando quatrocentas páginas de reflexões sobre a felicidade, o sentido da existência e a delicadeza das relações humanas.
— Qual o título?
— Pequenas escolhas para uma vida melhor.
Silêncio constrangedor.
O editor coça o queixo.
— Não vende.
— Pensei também em Caminhos para a felicidade.
— Pior ainda.
Alguém do marketing, no fundo da sala, ergue os olhos do celular:
— E se chamasse Pare de Fazer Merda e Viva, Porra!?
Todos se levantam e aplaudem. Contrato para quinze idiomas. Direitos para Netflix.
Talvez eu esteja ficando velho. Pode ser. Minha geração ainda acreditava que determinados recursos deveriam guardar alguma relação com o conteúdo. Se havia um palavrão num texto, imaginávamos que o autor tivesse ficado irritado em algum momento. Agora descobri que não: ele pode estar absolutamente tranquilo, tomando chá de camomila enquanto escreve “foda-se” pela décima quarta vez porque o departamento comercial descobriu que isso aumenta a conversão.
Existe também uma pequena contradição filosófica que me diverte. Se alguém realmente aprendeu a “ligar o foda-se”, por que sente tamanha necessidade de escrever trezentas páginas explicando para desconhecidos como fazê-lo? O verdadeiro praticante da filosofia do foda-se, suponho, não escreveria o livro. Talvez nem respondesse aos e-mails da editora. O editor perguntaria onde está o original e receberia como resposta precisamente aquilo que o autor estava ensinando.
E há níveis cada vez mais sofisticados dessa revolução linguística. Já não basta usar o palavrão. É preciso transformá-lo em verbo, substantivo, adjetivo, método de gestão, programa de desenvolvimento humano e, se possível, seminário corporativo de dois dias num resort. Imagino que, em breve, teremos MBAs em Fodologia Aplicada, pós-graduação em Gestão Estratégica do Foda-se e algum coach explicando no Instagram os “sete pilares do enfoderamento consciente”.
Minha implicância não nasce de puritanismo. Nasce justamente da banalização. Palavrão bom é como pimenta: precisa aparecer quando faz diferença. Se você despeja o vidro inteiro no prato, depois de algum tempo não sente mais gosto de nada. A transgressão depende de alguma coisa ainda ser transgredida. Quando todas as capas gritam, nenhuma parece realmente corajosa. Quando todo mundo é irreverente seguindo exatamente a mesma fórmula, a irreverência virou uniforme.
Talvez daqui a alguns anos aconteça uma contrarrevolução editorial. Um jovem autor ousadíssimo lançará um livro chamado A Delicadeza de Pensar Antes de Agir. Será imediatamente considerado radical. Outro escreverá Seja Gentil e provocará protestos nas redes sociais. E algum visionário publicará Assuma Responsabilidade Pelas Suas Escolhas, sendo acusado de extremismo literário.
Eu, entretanto, não quero ficar para trás. Percebi que estou perdendo uma oportunidade comercial gigantesca ao insistir em títulos educados. Resolvi aderir. Se o mercado deseja palavrões, darei ao mercado aquilo que ele deseja. Aliás, pretendo simplificar o gênero inteiro. Não haverá necessidade de A Sutil Arte de Ligar o Foda-se, Fodeu Geral, Seja Foda, Enfodere-se, Resolva a Porra dos Seus Problemas nem qualquer outro esforço filosófico semelhante.
Agora resolvi entrar na tendência e vou sintetizar todos os títulos em um só:
VAI TOMAR NO C...
Com isso, espero escrever um best-seller mundial sobre a literatura escatológica e a diarreia verbal.
Se não vender, sinceramente?
Acho que já sei exatamente o que os autores dessa escola recomendariam que eu fizesse.
