Tenho pensado muito na vida como uma viagem de trem. Não é exatamente uma metáfora nova, eu sei. Talvez justamente por isso seja tão boa: algumas imagens sobrevivem ao tempo porque continuam explicando coisas que ainda não conseguimos explicar de outra maneira. Entramos no trem sem saber exatamente quanto durará a viagem, quais paisagens veremos, onde seremos obrigados a parar e, sobretudo, quem estará sentado conosco quando a locomotiva começar a diminuir a velocidade pela última vez. Sabemos apenas que seguimos. Enquanto fazemos planos, trabalhamos, amamos, brigamos, acumulamos coisas e adiamos outras tantas, o trem continua avançando. E as estações, indiferentes às nossas vontades, continuam chegando.
Os primeiros passageiros normalmente entram muito cedo. Pais, irmãos, avós, primos, vizinhos, colegas de escola, professores. Quando somos crianças, temos uma espécie de certeza arrogante de que aquele pequeno universo existirá para sempre. A rua onde brincávamos parece eterna. O amigo que sentava ao nosso lado na sala de aula parece destinado a atravessar toda a vida conosco. A casa dos avós parece um endereço permanente no mundo. Depois crescemos e descobrimos uma das primeiras crueldades do tempo: quase nada era permanente. Mudamos de escola, de bairro, de cidade, de emprego, de interesses. Algumas pessoas descem sem que sequer percebamos que aquela foi a despedida. Um dia brincamos pela última vez com determinado amigo de infância e nenhum de nós sabia que era a última vez. Não houve abraço especial, fotografia, anúncio ou cerimônia. Apenas fomos para casa. E a vida nunca mais conseguiu marcar aquele encontro outra vez.
Talvez existam poucas coisas tão estranhas quanto recordar alguém que já foi parte inseparável da nossa rotina e perceber que hoje não sabemos absolutamente nada sobre sua vida. Pessoas que sabiam nossos medos, nossas brincadeiras, nossos apelidos, que dividiram segredos conosco e que, décadas depois, talvez passem por nós numa rua sem que nos reconheçamos imediatamente. Algumas amizades não terminaram por brigas, traições ou grandes acontecimentos. Apenas foram ficando para trás, estação após estação, enquanto cada um seguia em um vagão diferente. Há pessoas que não perdemos: simplesmente deixamos de encontrar. E talvez esta seja uma das formas mais silenciosas de perda.
Depois chegam outros passageiros. Os colegas de trabalho, por exemplo, talvez estejam entre os personagens mais injustiçados da nossa história. Passamos com alguns deles mais horas acordados do que com nossa própria família. Dividimos manhãs, almoços apressados, problemas, conquistas, irritações, projetos, derrotas, cafés, prazos impossíveis e conversas aparentemente banais. Sabemos quem chega mal-humorado, quem está preocupado com um filho, quem está endividado, quem sonha mudar de profissão, quem conta sempre a mesma história. E, paradoxalmente, muitas vezes tratamos essas pessoas como simples elementos do cenário profissional. Só percebemos a dimensão dessa convivência quando alguém muda de emprego, se aposenta, adoece ou simplesmente desaparece daquela rotina. A cadeira vazia, então, revela algo que nunca havíamos pensado: aquela pessoa fazia parte dos nossos dias muito mais do que imaginávamos.
Talvez cometamos um erro parecido com muitas outras pessoas. O porteiro que nos cumprimenta durante vinte anos. O vizinho que sempre pergunta pela família. O funcionário do restaurante que já conhece nosso pedido. A pessoa que trabalha conosco e que diariamente resolve pequenos problemas que sequer percebemos existir. Estamos tão preocupados em encontrar as pessoas “importantes” que frequentemente esquecemos de perceber aquelas que silenciosamente sustentam partes inteiras da nossa vida. Nem todo passageiro precisa ocupar a primeira classe para ser fundamental à viagem.
Existem também os passageiros que chegam fazendo muito barulho. Entram anunciando permanência, falando em eternidade, ocupando vários lugares ao mesmo tempo. Alguns descem poucas estações depois. Outros chegam quase despercebidos, sentam-se discretamente e permanecem durante décadas. A vida parece possuir certa ironia nessa distribuição dos afetos: nem sempre quem promete ficar é quem fica, nem sempre quem imaginávamos passageiro é realmente passageiro. Às vezes descobrimos tarde demais que aquela presença aparentemente comum havia se transformado em parte da estrutura do nosso próprio vagão.
Há ainda aqueles que descem contra a própria vontade. A morte talvez seja a estação mais brutal porque não aceita negociações. Em algum momento começamos a perceber que os passageiros mais antigos estão diminuindo. Os avós vão embora. Depois alguns tios, amigos, professores, conhecidos. Até que, em determinado ponto da viagem, algo estranho acontece: deixamos de ser os passageiros mais jovens do vagão. Começamos a ocupar os lugares daqueles que antes julgávamos velhos. A fotografia da família muda. Os rostos que estavam no centro passam a existir apenas nos porta-retratos. E, quase sem perceber, nós nos tornamos a geração que começa a ser observada pelas crianças exatamente como um dia observamos nossos próprios pais.
Talvez seja por isso que a pergunta sobre a última estação se torne mais incômoda com o passar dos anos. Não é exatamente medo de morrer. É curiosidade sobre quem permanecerá. Quem estará conosco quando já não tivermos tanta utilidade social? Quando nossos cargos forem ocupados por outros, nossos projetos seguirem sem nós, nosso telefone tocar menos e nossa opinião deixar de ser tão procurada? Quem continuará entrando em nosso vagão quando não houver mais vantagens, oportunidades, negócios ou qualquer coisa a ser conquistada ao nosso lado? É relativamente fácil saber quem quer viajar conosco enquanto estamos atravessando paisagens bonitas. A resposta verdadeira aparece quando começa a escurecer do lado de fora.
Talvez a maturidade seja justamente perceber que não precisamos de um trem cheio. Durante boa parte da vida confundimos quantidade com importância. Queremos ser conhecidos, admirados, procurados, convidados. Queremos muitos contatos, muitos amigos, muitas pessoas ao redor. Depois alguma coisa muda. Começamos a entender que algumas poucas presenças valem mais do que vagões inteiros. Pessoas diante das quais não precisamos desempenhar personagem algum. Pessoas capazes de reconhecer nosso silêncio. Pessoas que conheceram nossas vitórias, mas também conhecem os capítulos que não publicamos. Pessoas que não estão conosco pela versão que apresentamos ao mundo, mas apesar de conhecerem a versão que escondemos dele.
Mas existe uma pergunta ainda mais difícil, e talvez ela seja a verdadeira questão desta crônica. Passamos muito tempo querendo saber quem ficará conosco até a última estação, mas raramente perguntamos com quem nós decidimos ficar. Para quantas pessoas fomos passageiros temporários quando poderíamos ter permanecido? Quantos amigos de infância deixamos desaparecer sem sequer tentar encontrá-los novamente? Quantas vezes atravessamos anos ao lado de colegas de trabalho sem perguntar sinceramente se estavam bem? Quantos telefonemas adiamos? Quantas visitas ficaram para a próxima semana? Quantas pessoas só passaram a ter importância em nossos discursos depois que já não podiam mais ouvi-los?
Não controlamos quem entra em nosso trem, tampouco conseguimos impedir algumas despedidas. Mas podemos escolher prestar mais atenção enquanto os passageiros ainda estão aqui. Talvez devêssemos olhar menos para a próxima estação e um pouco mais para quem está sentado ao nosso lado agora. Perguntar mais. Ouvir mais. Agradecer mais. Reconhecer mais. Porque existe uma possibilidade perturbadora em toda viagem humana: podemos estar vivendo neste exato instante a última conversa com alguém sem saber disso. Podemos estar tomando o último café, participando da última reunião, dando o último abraço ou dizendo um distraído “até amanhã” para alguém que jamais veremos novamente.
E há também aqueles passageiros que talvez tenham saído do nosso trem, mas não da nossa história. Um amigo da escola que não vemos há quarenta anos ainda pode estar presente em alguma parte de nós. Um professor pode ter dito uma frase numa manhã qualquer e mudado silenciosamente nosso destino. Um colega de trabalho pode ter nos ensinado algo que continuamos repetindo décadas depois. Algumas pessoas não precisam chegar conosco ao destino final para terem sido essenciais à viagem. Talvez a importância de um passageiro não seja determinada pela quantidade de estações que percorreu ao nosso lado, mas pelo quanto nossa rota mudou depois que ele passou por ali.
No final, suspeito que a vida seja muito menos sobre chegar e muito mais sobre com quem viajamos enquanto estávamos indo. Os títulos ficam para trás. O patrimônio muda de mãos. As empresas continuam. As casas recebem novos moradores. Os objetos que guardamos cuidadosamente acabam espalhados entre outras pessoas. Até nossos lugares preferidos continuarão existindo sem qualquer conhecimento de que um dia fomos seus frequentadores. O que talvez permaneça seja algo muito menos mensurável: pequenas marcas que deixamos uns nos outros durante o percurso.
Não sabemos quantas estações faltam. Talvez seja melhor assim. Se soubéssemos exatamente o momento da chegada, provavelmente transformaríamos a vida inteira numa angustiante contagem regressiva. A ignorância nos permite continuar olhando pela janela, fazendo planos e acreditando no amanhã. Mas saber que existe uma última estação deveria pelo menos nos tornar mais atentos aos passageiros de hoje.
Porque algum dia a locomotiva diminuirá a velocidade. O barulho dos trilhos ficará diferente. A paisagem passará mais devagar. E então talvez descubramos que, depois de tantas viagens, conquistas, disputas, perdas e encontros, uma das perguntas mais importantes de toda a existência sempre foi surpreendentemente simples: Quem ainda estará sentado ao nosso lado?
E talvez exista uma pergunta ainda mais importante: Ao lado de quem nós teremos escolhido permanecer?
André Mansur Brandão
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