Ensaios Sobre a Tortura!

Quais os limites do ser humano? Seria possível quantificar, em números, a dor a que um homem pode ser submetido?

Ela deveria ter em torno de 40 anos de idade. Talvez mais, talvez menos. As roupas que vestia permitiam concluir que não vinha de uma família rica. Nem pobre.

Trajes comuns, ela não era gorda, nem magra. Cabisbaixa, era fácil concluir que estava sofrendo. Gemia baixinho, de forma quase imperceptível.

A dor que sentia era intensa, pulsante e viva. A dor que tinha se tornado sua companheira dos últimos dias, aumentava, aos poucos, a cada longo segundo que se passava naquele lugar.

O lugar onde estava sentada era pouco iluminado. Uma espécie de corredor, frio e embolorado. Quando lá chegou, sentiu um forte odor de fezes e vômitos, que se misturava ao cheiro de adrenalina que exalava de outras pessoas que se sentavam ao seu lado.

Seus companheiros de corredor entravam e saíam, lentamente. Mas ela não os conseguia identificar, mais. Após tantas horas naquele lugar fedido, e diante do intenso sofrimento de seu corpo e de sua alma, ela somente conseguia detectar vultos disformes.

Gritos de dor, choros desesperados eram ouvidos com uma frequência enlouquecedora. Sim, ela estava enlouquecendo.

Com sua mão esquerda, ela segurava seu braço direito, visivelmente fraturado, de forma grave, como era possível concluir pelo enorme inchaço no local.

Dores lancinantes, gritos desesperadores, alma cansada. Estaria ela em algum tipo de inferno?

Seu nome era Maria da Conceição. Não se considerava uma pessoa boa, nem má. Era comum, tinha um emprego comum e vivia uma vida comum. Não entendia o porque de tanto sofrimento.

Conceição, como era chamada por seus poucos familiares e colegas de trabalho, estava naquele local há mais de 40 horas. Para ela, todavia, parecia uma eternidade, diante de tanta dor e sofrimento.

Tentava se manter sóbria, lúcida, sem desmaiar, mas suas forças já davam sinais de derrota. Ela estava extenuada, exaurida. Nem mais conseguia chorar, como fazia logo que a levaram para aquele lugar horrível.

SENHORA MARIA DA CONCEIÇÃO! – gritou uma voz masculina, rouca, quase brusca.

 MARIA DA CONCEIÇÃO – repetiu a voz, dessa vez quase gritando.

 Alguém a estava chamando. Quase sem enxergar, já que a dor tinha ultrapassado quase todos os limites humanos, ela se arrastou com dificuldades na direção da voz.

 Um homem pequeno estava de pé, no corredor, e a aguardava de forma impaciente. Sem conseguir enxergar sua fisionomia, ela parou diante dele e aguardou que dissesse algo.

 O homem, então, asseverou:

 – Vá até o final desse corredor, e entre na sala 26. O doutor fulano de tal irá atender a senhora.

 Lentamente, dirigiu-se ao local indicado pelo homem. Lá chegando, um jovem médico a aguardava. E, após quase dois dias de espera, a senhora Maria da Conceição conseguiu, enfim, ser atendido no posto de saúde da grande cidade onde morava.

 Sei que vocês estão surpresos, correto? Achavam que Conceição estava em um porão da tão temida ditadura? Negativo!

 A cena acima me foi descrita por essa mulher, cujo nome foi trocado, para fins de manter a sua privacidade. Mas, certamente, ela não é e nem será a única pessoa a passar pelo inferno para ter acesso a um atendimento médico de urgência (ou de emergência), de forma minimamente digna.

 Nos últimos meses, em nosso País, muito se falou sobre as torturas ocorridas e documentadas nos chamados porões da ditadura militar brasileira.

 Impossível negar a ocorrência de vários casos de supressão dos direitos humanos de pessoas que eram contra o sistema e o governo militar.

 Não é disso, entretanto, que estamos falando agora.

 A corrupção é a pior forma de tortura que existe.

Retira dos cidadãos seus direitos mais elementares, como o direito à vida, à saúde e à dignidade humana.

A dor que um torturador convencional pode impingir a um ser humano é apenas uma pequena parte da dor que o corrupto impõe a milhares de milhões de pessoas, pelo Brasil afora.

A tortura individual pode levar um homem à morte, lenta e cruel. A ação dos vermes, que atacam as verbas públicas com a sua ambição criminosa, destrói, de forma igualmente ardilosa, a vida e a esperança de toda uma sociedade.

A corrupção provoca dores, humilhações e a morte lenta de inúmeras pessoas. E, assim como devemos repudiar a tortura individual, devemos sentir nojo de toda forma de corrupção, por mais simples e inofensiva que possa parecer.

A parte mais complexa é saber diagnosticar, de forma precisa, como a corrupção se manifesta, na sociedade, através de nosso comportamento individual.

Vamos analisar algumas situações corriqueiras da vida cotidiana.

Parar um carro na fila dupla, na porta das escolas. Realizar ultrapassagens pelos acostamentos das rodovias. Furar a fila nos cinemas ou lanchonetes. Falsificar um documento de identidade, para parecer mais velho, e poder entrar em determinados shows e espetáculos?

Reconhecem alguns desses comportamentos? Claro que sim!

Ainda assim, mesmo que pratiquemos “pequenos”se e “inconsequentes” atos de corrupção, revoltamo-nos, quando essa mesma corrupção manifesta em nível nacional, praticada por terceiros.

As pequenas imperfeições individuais ganham escala gigantesca, quando o homem passa a ter acesso ao poder.

E toda a sociedade acaba sendo, ora vítima, ora cúmplice, dessa abjeta forma de corrupção que destrói o mundo, retirando da senhora Maria da Conceição, e de milhões de outros seres humanos, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, não somente o direito a uma saúde de qualidade, mas o próprio direito à vida e à liberdade de sonhar.

Pensem nisso. Pois a vítima de uma sessão de tortura pode ser você!

Reflitam e fiquem com Deus!

 

André Mansur Brandão
Diretor-Presidente, Advogado e Escritor

ANDRÉ MANSUR ADVOGADOS ASSOCIADOS

 

 

 

 

 

Nunca Deixe de Sonhar!

No mundo real, infelizmente, a grande maioria das histórias não têm um final feliz.

A parte boa da vida é que podemos, em muitas situações, mudar o mundo e nossa vida, transformando situações de grande adversidade não somente em uma forma de aprendizado, mas, também, em vitórias.

Para se transformar fracassos em sucessos basta sonhar? Infelizmente não. Mas já é um grande começo.

Vou contar para vocês uma pequena história que pode ou não ter acontecido, que fala do estranho encontro entre sonhos e realidade.

Era uma vez …

Em uma cidade grande do Brasil, uma pequena família lutava contra muitas dificuldades. Mãe, pai e dois filhos pequenos, uma menina, de cinco anos e um menino, que mal tinha completado nove.

Mãe e pai, ambos desempregados, chegados do interior do estado de Minas Gerais, há quase um ano, morando em um pequeno cubículo, na periferia da cidade. Filhos ainda fora da escola, por absoluta falta de condições da família.

Todas as economias do casal tinham sido consumidas e as contas já começavam a se acumular por sobre a mesa da pequena sala, que praticamente se emendava com o único quarto do barracão.

Além de desempregado, o pai ainda padecia de fortes dores nas pernas, provenientes do árduo trabalho no campo, que durante anos agrediu seu corpo frágil.

O pouco dinheiro que ainda insistia em sobrar somava pouco mais de cem reais, sendo que, somente as contas de água e de luz, já vencidas, totalizavam quase cinquenta reais.

CEMIG e COPASA eram, respectivamente, as concessionárias de luz e água daquela cidade e castigavam com cobranças insistentes, humilhantes e ameaçadoras.

Já havia três contas vencidas de cada uma delas e os cortes de luz e água eram questão de tempo. Além de todas os problemas inerentes ao desemprego e à falta de recursos, ainda teriam de ficar no escuro e sem água para beber ou fazer a sua higiene pessoal.

Era uma situação desesperadora!

Para evitar o corte iminente, e por estar com dificuldades de se locomover, o pai pediu ao filho pequeno, de nome João, para pagar as duas últimas contas da Cemig e da Copasa, apenas uma de cada.

Deu a ele quatro notas de dez reais e duas de cinco, suficiente para pagar as contas que totalizavam R$ 49,62, sem os encargos, que viriam nas próximas faturas. Pagando essas duas contas, os cortes seriam evitados, dando à família, pelo menos mais trinta dias de tempo.

Apesar de muito novo, saiu o menino em direção à casa lotérica, de uma certa forma orgulhoso com a missão que lhe tinha sido confiada. Corria, ansiosamente, pois o horário de fechamento estava muito próximo. Se passasse das oito horas da noite, não conseguiria pagar as contas.

Logo na entrada, deparou-se com um cartaz que anunciava:

LOTERIA: CONCORRA A DOIS CARROS DE UMA SÓ VEZ. SORTEIO AINDA NESTA NOITE!

Os olhos do menino começaram a brilhar. Dois carros de uma única vez!

Resolveria todos os problemas da família. Um deles certamente seria vendido pelo pai e o dinheiro revertido para pagar as suas dívidas e mudarem para um lugar melhor.

O outro? Claro. O outro ficaria com eles e seria usado para fazerem inesquecíveis passeios, todos juntos, felizes, como ele via nos comerciais. Era a solução.

O valor do bilhete? Exatamente os cinquenta reais que ele tinha em mãos. Certamente era um sinal de Deus. Tinha de ser!

Pensou por quase meia hora. E tomou a decisão: comprou o bilhete, voltando correndo para seu barraco, onde seus pais já o aguardavam impacientes e aflitos, devido à demora e ao avançado da hora.

Quando o menino comunicou aos pais sobre sua decisão de não pagar as contas, usando o dinheiro para comprar um arriscado bilhete de loteria, ambos se desesperaram.

O pai não se conteve e começou a chorar copiosamente, enfiando sua cabeça no velho travesseiro que usava para dormir.

A mãe, igualmente alterada, caminhava nervosamente pelo pequeno espaço, de um lado para outro, ora dizendo frases desconexas, ora praguejando contra a vida e a tamanha falta de sorte da família.

O menino caminhou lentamente para o cantinho onde dormia, perto da irmãzinha, e começou, também, a chorar, baixinho. Até seu pequeno corpo ceder ao cansaço e à tristeza que sentia.

A pequena casa, com seus quatro moradores, adormeceu!

No dia seguinte, bem cedinho, batidas fortes na porta acordaram todos, de sobressalto.

Ao saírem, deparam-se com a seguinte cena:

DOIS CARROS NA PORTA!

Eram a Cemig e a Copasa, que tinham chegado para cortar a luz e a água.

E assim termina a história!

Para os que nesse momento querem me bater, eu vou confessar: é uma piada, transformada em conto. E com uma dose grande de humor afrodescendente.

Vocês deveriam ter desconfiado do final quando eu disse que o nome do menino era João. Exatamente, o lendário Joãozinho deixou sua família no escuro e sem água.

Até as histórias, todavia, têm uma lição de moral.

Na vida, sempre procuramos atalhos para sairmos de nossas dificuldades, quando a solução, que sempre existe, sempre será através de muito esforço e superação.

Esse conto, em forma de piada, não foi baseado em fatos reais. Reflete, contudo, a situação de miséria vivida por milhões de brasileiros.

Outros tantos milhões nem sequer possuem energia elétrica, água encanada, esgoto e saneamento básico.

Devemos pensar nisso, antes de reclamarmos de nossas vidas, por motivos muito menos sérios. Se até quem vive na miséria sabe que ainda existem pessoas em situações piores. Aqueles que agonizam, doentes, muitas vezes em condições terminais de suas vidas.

Vivamos mais, com mais bom humor. Sem amargor, e sem descontarmos nas pessoas que nos cercam nossa dor ou nossos problemas, nem sempre tão graves.

Vamos ser felizes, antes que Deus, o juiz da vida, apite o fim do jogo. Viver sempre tem de ser melhor do que morrer.

Concluo, lembrando que a vida somente vale a pena se nunca deixarmos de sonhar. Mas, quando tivermos uma conta para pagar, vamos pagar. Senão a Cemig e a Copasa aparecem com seus carros.

Que Deus nos abençoe a todos!

Fiquem com ELE!

André Mansur Brandão
Diretor-Presidente, Advogado e Escritor

ANDRÉ MANSUR ADVOGADOS ASSOCIADOS

Vete De Arrascaeta Y No Vuelvas Mas

Vá embora, De Arrascaeta! E não volte.

Lembro-me de quando vi Arrascaeta pela primeira vez. Era uma partida válida pela Copa Libertadores da América, do ano de 2014.

O ônibus do time do Defensor, do Uruguai, entrava lentamente no estádio Mineirão, escoltado por diversos policiais.

Em volta, um verdadeiro inferno azul, formado por gritos, fogos de artifício, bandeiras e uma multidão de torcedores cruzeirenses, que gritavam palavras de ordem, para intimidar o adversário do Cruzeiro naquela noite.

O ônibus era um modelo duplo-deck, esses de dois andares, mas dava para ver nitidamente os jogadores do Defensor inclinados nervosamente na janela.

Dois rostos destacavam-se, na penumbra interna do veículo. Em uma das janelas podíamos ver Gedoz, um jogador brasileiro, que servia à equipe uruguaia.

Em outra janela, um pouco mais à frente, estava Arrascaeta, então uma jovem e tímida promessa do futebol sul-americano, quase desconhecido da mídia futebolística.

Uma coisa imediatamente me chamou a atenção: ao contrário de Gedoz, que se mantinha estranhamente calmo, diante do mundo azul que o tentava intimidar, Arrascaeta estava muito nervoso e ansioso.

Nada anormal, já que ele era um atleta jovem, que jogaria, em instantes, contra uma equipe muito maior do que a sua, em um jogo de grande importância para seu clube e suas aspirações pessoais.

Quando entrou em campo, a jovem promessa deixou o nervosismo de lado e começou a se mostrar, naquele jogo, para o futebol mundial.

Deu assistência para o primeiro gol do Defensor e ainda fez o segundo, impondo ao Cruzeiro um amargo empate em 2×2, em pleno estádio Mineirão. Aos traumáticos 48 minutos do segundo tempo.

No ano seguinte, 2015, foi oficialmente contratado pelo Cruzeiro e, naquele momento, nasceu De Arrascaeta, agora, sim, uma real promessa para o futebol mundial, visto que usaria um dos mais sagrados mantos do futebol sul-americano e, porque não dizer, do futebol mundial.

A segunda vez em que o vi, já vestindo o uniforme do Cruzeiro, foi no estacionamento G2 do Mineirão, lugar onde são estacionados os veículos de luxo dos jogadores, além dos demais carros de autoridades, membros da imprensa e usuários de camarotes e cadeiras especiais (meu caso).

O jogo havia acabado e meu filho e eu esperávamos para tirar fotos com os atletas e com a comissão técnica, um passatempo a que nos dedicamos desde 2013, quando o novo Mineirão foi reinaugurado.

Arrascaeta chocava por ser muito franzino. Nem de longe imaginávamos que aquele garoto, que tinha a compleição física de um menino, seria, um dia, ídolo de uma das grandes torcidas de futebol do Brasil.

Pequenino e frágil, usava um capuz para encobrir sua cabeça, deixando à mostra somente o rosto, quase imberbe. Olhava para baixo o tempo todo, como se tivesse vergonha. Ou medo da multidão de torcedores que começavam a assediá-lo.

Para que as pessoas que não são cruzeirenses possam entender o motivo de toda a revolta de nossa torcida contra a saída do jogador para o Flamengo, é importante que conheçam esse breve histórico do jogador.

Não foi a saída dele que nos irritou, mas sim a forma como isso aconteceu.

Chegou fraco, franzino e inseguro, tendo recebido do Cruzeiro todo o apoio, até mesmo para conseguir ganhar massa muscular, já que era “leve” demais para o futebol atual.

Para os que não sabem, o Cruzeiro é um time-família. Abraça e acolhe a todos que chegam, com afeto e generosidade.

Atletas, principalmente os mais jovens, são tratados de forma carinhosa e pessoal. Quantos clubes no Brasil teriam mantido o zagueiro Dedé, após tamanho histórico de contusões que, para muitos, tornariam-no inviável para o futebol?

O Cruzeiro deu à Arrascaeta não somente o suporte técnico, médico, fisioterápico e nutricional, mas toda a assistência psicológica para não “queimar” a jovem promessa, já que o uruguaio nunca soube lidar bem com pressão, apesar de ter sido decisivo em algumas partidas, certamente fruto do suporte do grupo de jogadores e de Mano Menezes, de quem o jogador sequer se despediu, antes de virar as costas para o clube.

Encorpado, alimentado, treinado e preparado emocionalmente, De Arrascaeta foi convocado para a seleção de seu país. Pouco fez durante a Copa do Mundo, mas voltou e recebeu, novamente, todo o suporte do Cruzeiro.

Ignorou tudo isso e, de forma lamentável, encerrou sua a relação com o Clube que lhe projetou. Mais do que isso: com o clube que o acolheu, como dificilmente outro o fará. Não de forma tão afetuosa.

Não se trata de querer privar um jogador de crescer profissionalmente, de querer receber mais. Isso é comum, já que o futebol profissional contemporâneo preconiza o TER, em detrimento do SER.

A forma como saiu, e como fechou as portas do time que dele tão bem cuidou, mostrou uma face de seu caráter, que será uma marca que o acompanhará para o resto de sua vida.

E não adianta tentar colocarem a culpa em algum empresário supostamente ambicioso. O jovem uruguaio é um homem, adulto e independente, e deve ser responsabilizado por suas atitudes e submeter-se às consequências delas.

Cruzeiro é time grande, time de massa, acostumado a ganhar títulos, assim como o é o Flamengo.

Contudo, o rubro-negro da Gávea encontra-se refém de sua história recente, onde não ganha títulos importantes há anos. Lá, a pressão vai ser muito, mas muito maior.

E todos sabemos que De Arrascaeta não aguenta pressão. Se por dinheiro, virou as costas para o Cruzeiro e saiu, sem se despedir até de seus colegas, o que faria por medo?

Se abandonou o Cruzeiro, que tudo lhe deu, o que impedirá de fazer o mesmo com o Flamengo, quando o Maraca começar a tremer e a cobrar?

Como diria o rapper Eminen, na música LOSE YOURSELF, o jovem uruguaio terá, no Flamengo, apenas ONE SHOT, ONE OPORTUNITY.

Sim, um tiro, uma oportunidade. Apenas uma chance para dar certo.

Não falhe! A grande nação rubro-negra não o perdoará, caso isso aconteça.

Se você não valer o que pagaram, e o Flamengo ficar, novamente, apenas, sentindo o cheirinho de títulos, você experimentará um outro tipo de odor: o do medo.

Ou, o que é pior: o amargo perfume do ostracismo, do esquecimento.

Pode ser que minhas palavras pareçam de rancor. E devem ser mesmo.

Sou passional e amo o meu Cruzeiro. Estamos todos magoados com a forma ofensiva como esse jogador literalmente cuspiu no prato que o alimentou, usando de uma expressão popular.

Pelo menos me declaro parcial, e não me escondo sob o falso manto da isenção jornalística, expediente usado por alguns maus profissionais de mídia que torcem descaradamente para esse ou aquele time, enquanto publicam informes publicitários disfarçados de notícias.

Não se esqueça de que a bela e vitoriosa história do Cruzeiro continua, assim como a do Flamengo, enquanto a do jogador, que sai pela porta dos fundos da Toca da Raposa, ainda deve ser escrita.

Você manchou a sua história, não a nossa.

A galeria de ídolos do Cruzeiro possui centenas de jogadores que marcaram as chamadas páginas heróicas imortais. Brasileiros ou estrangeiros, homens de fibra e de caráter escreveram no livro eterno do Clube.

Somente usando o passado recente, podemos citar Everton Ribeiro, Goulart, Sorin, Alex, dentre outros, que entraram de forma definitiva para a história de sucesso do Cruzeiro.

Não somente pela forma como jogaram e defenderam o manto azul, mas, principalmente, pela maneira como saíram. Ou como encerraram suas carreiras. Acredite, De Arrascaeta, um dia, sua carreira vai terminar.

O que sobrará, quando você olhar para trás?

Homens de caráter e pessoas decentes saem pela porta da frente, pela porta que entraram, e não têm vergonha de olhar nos olhos de quem os recebeu. Homens de verdade não olham para o chão, pois não tem vergonha de seus atos.

Não conheço sua história, nem sei das dificuldades pelo que passou até se tornar um jogador de ponta.

Parece, porém, faltar-lhe conhecimento sobre a história e a vida dos milhões de torcedores cruzeirenses que insuflaram seu ego nas arquibancadas, proporcionando-lhe contratos financeiros sempre mais polpudos.

Você nem imagina pelo que passam uma mulher, um homem ou uma criança, em um país pobre, com tantas misérias e desigualdades, para ir a um estádio de futebol, gritarem e incentivarem o time do coração, ou comprarem a camisa 10, que você usou, mas onde cuspiu ao sair como saiu.

Não me refiro, apenas, aos milhões de pobres que, muitas vezes, deixam de comer, para prestigiar o time que os representa.

Jogadores são guerreiros, que entram nas partidas, com a missão de lavar a alma de todos. Como heróis azuis, rubro negros, de todas as cores, que lutam, em nome de milhões, contra as injustiças e mazelas que a sociedade impõe aos que pouco ou nada possuem.

Para nós, é paixão. Para você, é dinheiro. Pena que não soube entender isso e separar uma coisa da outra.

Torço, ironicamente, para que você continue a brilhar. Primeiro porque tenho afinidade e simpatia pelo Mengão.

Além disso, você é um bom jogador. Talvez seja mesmo um craque. Proporcionou-nos, nesses anos, muitas alegrias, vitórias e conquistas.

Como apaixonado pelo futebol que sou, gosto do talento, que você parece ter.

Dificilmente, todavia, a vida deixa de cobrar daqueles que separaram o ESTAR do SER.

Nossas atitudes, tanto as certas quanto as erradas, nos acompanharão pelo resto de nossas vidas. Assim como suas consequências. Para muito além dos 40 anos de idade, quando se encerra a carreira de um jogador de futebol.

Você, todavia, é jovem. Ainda tem muito a aprender, como todos nós.

Se existe alguém que pode mudar, esse alguém é jovem. Pois a juventude sempre tem, diante de si, nada menos que o futuro. Ainda que a juventude, um dia, acabe.

 

André Mansur Brandão
Diretor-Presidente, Advogado e Escritor

ANDRÉ MANSUR ADVOGADOS ASSOCIADOS

Participaram, também, Mônica Mansur, como revisora e André Victor Mansur, como pesquisador.

 

 

 

 

 

O Infeliz

Sua vida não era pior nem melhor do que a de ninguém que ele conhecesse. Não que conhecesse muita gente.

Na verdade, era uma pessoa muito solitária, apesar de estar sempre rodeado de pessoas, sempre barulhentas e desagradáveis.

Tinha um emprego medíocre. Não era bem remunerado, mas seu trabalho não lhe exigia mais do que a presença de seu corpo físico durante aproximadas cinquenta horas semanais, sentado a uma mesa, sempre lotada de documentos sem sentidos, a que lhe cabia destinar para diversos setores da empresa.

Não tinha namorada. Ou namorado, apesar das inúmeras insinuações de seus colegas de trabalho no sentido de uma possível homossexualidade.

Quatro horas por dia eram consumidas dentro de coletivos, ora apertados demais, ora vazios o suficiente.

A única coisa que realmente lhe dava prazer na vida era observar a cidade onde morava. Um balneário praiano, sempre muito frequentado por turistas do país inteiro e muitos de outros lugares do mundo.

Morava de aluguel em um barracão, quarto e sala, em uma casa localizada no final de uma vila de pescadores, próximo a uma ponte que cobria a parte profunda do manguezal, usada por vários veículos para atravessar para o outro lado da cidade.

Ele gostava de ver o encontro do mangue com a parte mais caudalosa do mar.

Da mureta da ponte, dava para ver a exuberância do oceano, tocando o céu, em um espetáculo único que a natureza lhe proporcionava: um lindo horizonte, ora dourado, ora cinzento, que sempre tocado o mar com delicadeza e arte.

Sentar-se perto do acesso à ponte, era realmente a única coisa que lhe proporcionava algum tipo de prazer em sua vida medíocre. Chegava do trabalho e ia para um pequeno banco de cimento, já devidamente estragado pela ação do tempo e da maresia.

E lá ficava, por horas e horas. Até voltar para o cubículo onde morava.

Após uma refeição, requentada e sem sabor, deixada por uma empresa de marmitas, tomava um rápido banho, lavando-se desconfortavelmente na pouca água que gotejava do chuveiro frio.

Banho tomado, roupa limpa, seu corpo cedia, enfim, ao cansaço.

Sua mente adormecia, mergulhando-o na noite. Uma noite longa demais, de sono, mas sem sonhos, que se prolongava até o despertar do dia seguinte, até começar de novo a sua vidinha.

Ele era realmente um completo infeliz!

Durante os fins de semana, o peso de sua vida sem sabor era mais leve. Tinha mais tempo para observar as pessoas que caminhavam, felizes e perfeitas, pela praia, perto da ponte.

Mulheres e homens perfeitos. Famílias ideais, que poderiam ser a sua, com quem não mantinha contato há anos.

Homens e mulheres, correndo como atletas, rostos e corpos perfeitos, como se flutuassem sobre o chão, em uma linda, mas dolorosa sinfonia.

Qual era o critério que Deus usava para distribuir a felicidade? Por que Ele dava tanta coisa para tantas pessoas, enquanto sua vida era tão insossa, tão sem graça?

Repentinamente, uma presença feminina roubou-lhe de seus tristes pensamentos. Não era a primeira vez que ele a via ali. Mas ela estava especialmente deslumbrante naquele fim de tarde.

Se muito, deveria ter uns trinta anos. Seus cabelos, negros e longos, contrastavam com a pele muito clara, mas ligeiramente avermelhada, dando um tom rosado àquela face de anjo, certamente fruto da ação do sol, tomado na dose ideal.

Sempre que passava pelo banco de cimento, perto da entrada da ponte, ela o cumprimentava, educadamente, movendo levemente o rosto. Era o tipo de mulher que sorria com os olhos. Era perfeita!

E como era linda!

Que tipo de homem mereceria de Deus a sorte de desposar aquele anjo de perfeição?

Como seria maravilhoso construir uma família com uma pessoa tão perfeita…

Ela não devia ser como as demais mulheres, que o olhavam por cima, como se ele sequer existisse.

Além de ser linda, ainda era gentil e educada. Certamente não era alguém com quem ele pudesse sequer sonhar. Já que sonhos nunca foram uma opção. Pelo menos não que ele se lembrasse.

Uma mulher perfeita como aquela desposaria um homem perfeito. Teriam filhos perfeitos e viveriam em uma casa luxuosa, confortável, com diversos banheiros e chuveiros com água quente e caudalosa.

Certamente ela deveria ter um emprego empolgante, algo que a fizesse saltar da cama, todos os dias, excitada e vibrante, para irradiar sua perfeição por onde quer que passasse.

Não, sonhar com essa vida, para ele, era quase um pecado. Nunca poderia ser feliz assim. Não com aquela mulher perfeita!

Seus pensamentos foram bruscamente interrompidos por gritos, vindos de um grupo de pessoas que estava perto da ponte. O inexplicável, o impossível aconteceu.

A mulher perfeita havia subido no beiral da ponte e saltado, para a morte certa. Morte confirmada, pouco mais de duas horas depois, após o resgate de seu corpo, outrora tão belo, agora inerte, sem vida.

Socorristas e policiais realizavam suas funções, de forma rápida e hábil, como se estivessem acostumados a lidar com aquela trágica situação com frequência.

Uma multidão de curiosos circundava a cena, enquanto o cadáver da mulher era

examinado por algum tipo de polícia técnica.

O homem aproxima-se de seu corpo.

Reconhece-a imediatamente, principalmente pelos cabelos, ainda molhados e sujos de areia, mas estranhamente sem perder sua viscosidade e beleza. Não havia dúvidas de que era o corpo da mulher perfeita.

Uma espécie de lona preta é colocada sobre seu corpo sem vida. O vento lateral batia fortemente sobre o mar, criando um clima ainda mais bucólico para a triste cena.

Ele sequer sabia o nome daquela mulher.

Permaneceu de pé por mais de duas horas, até o momento em que um carro do Instituto Médico Legal retirou o corpo da praia, fazendo a multidão dispersar-se rapidamente, até sobrar, somente, o homem, que vagarosamente inicia o caminho de sua casa, pensando: o que será que leva uma pessoa a fazer algo tão terrível contra si mesmo?


O conto acima, infelizmente, não somente foi baseado em um caso real, como aconteceu de fato. Pelo menos a parte do suicídio da jovem mulher é totalmente real, tendo acontecido em uma cidade litorânea do Brasil.

Eu estava de férias na região e assisti na reportagem da TV local todos os detalhes dessa tragédia.

O homem que eu usei para criar o conto talvez seja real, talvez não. Um cliente havia me ligado dois dias antes e reclamou muito comigo sobre sua vida, sua tristeza.

As coisas que ele me falava chocavam, por eu nunca imaginar que ele pudesse estar se sentindo tão mal, apesar de as pessoas olharem para a vida dele, de fora para dentro, e desejarem viver aquela vida.

Tudo isso aconteceu por volta das festas de final de ano, período em que crescem muito os casos de suicídios.

Tive diante de mim dois casos reais. Um, de um homem que sofria, por se achar profundamente infeliz. E outro, uma mulher jovem e bonita, que havia saltado de uma ponte, para a morte certa.

Os dois casos conflitavam, mas se completavam. Um, se achava infeliz, mas não sabia de fato o porquê.

A mulher havia atingido tamanho grau de desespero que imaginava não existir outra opção para aliviar a sua dor.

Algo que me chamou muito a atenção foi o fato de que, de acordo com o depoimento de testemunhas, a mulher sequer pensou para saltar. Chegou, subiu na mureta da ponte, e pulou, sem ao menos vacilar.

Nossa profissão de Advogado coloca-nos o tempo todo em contato com desgraças humanas. São frequentes vidas e almas despedaçadas nos procurarem com seus sonhos desfeitos e pesadelos reais.

Por toda a fé que eu tenho em Deus, é claro que sou totalmente contra o suicídio, como forma de alívio para a dor extrema. Eu bem que sei o quanto viver pode ser doloroso.

Sei, entretanto, que viver é maravilhoso, sensacional, e agradeço cada dia de minha vida e da minha família a Deus.

Eu bem que sei que as aparências enganam, como aconteceu no conto acima, que mistura duas realidades em uma fantasia real. Parece confuso, mas não é!

Olhamos a vida das pessoas de fora para dentro. Raros são os que mostram, externamente, seus infernos interiores.

E isso não é nada bom, pois quando alguém consegue, de fato, matar-se, destrói a vida dos que ficam, sejam amigos ou parentes que, além da dor normal da perda de alguém que se ama, ainda se sentirão sempre culpados por não terem percebido uma dor tão grande, que conduz alguém ao ponto de se matar.

Se você está sofrendo, peça ajuda. Sempre haverá alguém que lhe ama. Não cometa o erro de achar que estamos sozinhos nesse mundo.

Parte da tristeza é referencial.

Ficamos ainda mais tristes se comparamos nossas vidas com a das demais pessoas, que se mostram tão felizes, tão perfeitas, como a mulher que se matou, no conto acima e na vida real.

Aconteça o que acontecer, tanto a tristeza extrema, quanto a alegria surreal, vão passar. Tudo é questão de tempo.

E de fé!

Concluo, deixando para vocês uma fábula de Esopo, recontada por La Fontaine que, com rara felicidade, fala sobre como lidar com a tristeza, mostrando que a morte sempre é um desígnio de Deus, um fechamento para a nossa existência terrena, para quer possamos seguir com nossas vidas, em um lugar onde a morte não existe.

Um pobre lenhador, vergado pelo peso dos anos e da lenha, que às costas trazia, caminhava gemendo, no calor do dia, sentindo por si próprio o mais cruel desprezo.

A dor, por fim, foi tanta que ele até parou e, pondo ao chão seu fardo, pôs-se a refletir:

Que alegrias tivera em seu pobre existir? Depois de tanta vida, algum prazer lhe restou?

Faltara, às vezes, pão; descanso, nunca houvera;

Os filhos, a mulher e o cobrador, à espera;

O imposto e a cara feia do soldado…

Ele era um infeliz, completo e acabado!

Pensando nessa falta de alegria e sorte, chamou em seu auxílio da morte.

“Vosmecê me chamou, e eu vim. Agora venha.”

“Só te chamei pra me ajudar com a lenha…”

A morte tudo conserta, mas pressa não deve haver, pois a sentença é bem certa: antes sofrer que morrer.

 

André Mansur Brandão
Diretor-Presidente

ANDRÉ MANSUR ADVOGADOS ASSOCIADOS

 

 

A História de um Menino Chamado “Torresmo”!

Por causa de sua estupidez e burrice, a professora estava sempre gritando com Torresmo .

– Você me deixa louca, Torresmo ! Você não tem jeito!

Um dia, a mãe de Torresmo  foi até a escola para verificar como seu filho estava indo.

A Professora disse honestamente para a mãe que seu filho era um desastre, tinha notas muito baixas e que ela nunca viu um menino assim que não gosta de estudar em toda sua vida profissional ensinando crianças.

A mãe ficou tão chocada com esta sincera conversa que ela tirou seu filho da escola, saiu do interior e mudou-se para São Paulo.

25 anos depois, esta mesma Professora foi diagnosticada com uma grave enfermidade no coração quase incurável.

Todos os médicos de sua região indicaram a ela que necessitava de uma cirurgia do coração, mas que este tipo de operação somente um médico em São Paulo era capaz de fazer.

Deixada sem otimismo, a Professora decidiu tentar esta última esperança.

Ela foi para São Paulo e num hospital de lá realizou com sucesso a tal operação.

Quando ela abriu os olhos, voltando da cirurgia, ela viu um belo e jovem médico à sua frente, sorrindo para ela.

Ela queria agradecer a ele, mas não pode falar.

Sua face se tornou azul, ela levantou sua mão, tentou gritar sem conseguir e rapidamente ela morreu.

O médico ficou chocado, tentando entender o que aconteceu de errado.

Então, ele olhou para o lado e viu que o maldito faxineiro Torresmo , que trabalhava no hospital, desligou os equipamentos de suporte da tomada do quarto,  para ligar seu aspirador de pó e limpar o corredor.

Tava achando que torresmo tinha virado médico né?? Kkk

Não estuda não, pra ver.

Cobrança Abusiva de Dívidas

Como bancos, financeiras, empresas de telefonia e outros podem transformar a vida das pessoas em um verdadeiro inferno

Dizem que o dinheiro não traz felicidade, correto? Mas a falta dele certamente provoca infelicidade.

A situação torna-se ainda pior quando os recursos tornam-se insuficientes, diante da grande quantidade de despesas mensais que milhões de brasileiros têm que pagar.

Muitas vezes, esses compromissos intermináveis acabam por se transformar nas temidas dívidas. Com elas, um “enxame” de insuportáveis cobradores começa a infernizar a vida dos devedores.

Toda vez que abordo o assunto “dívidas”, muitos pensam naqueles nossos “amigos”, que pedem dinheiro emprestado e não nos pagam. Os famosos caras-de-pau, que ostentam às custas do dinheiro e do trabalho alheio.

O assunto que trago para vocês hoje não tem nada a ver com esse tipo de situação.

Quero tratar especificamente das dívidas que, muitas vezes, somos obrigados a contrair com bancos e financeiras. E, o que é pior: dívidas que, às vezes, nem existem.

Isso mesmo!

A cobrança abusiva pode surgir em dois tipos de situações, basicamente. Em primeiro lugar, vou falar sobre as dívidas que existem. Qualquer pessoa pode ser obrigada a tomar algum tipo de empréstimo em um banco ou financeira, para cobrir alguma despesa eventual, emergencial ou mesmo para financiar algum bem ou mesmo uma viagem.

Nem sempre, as pessoas conseguem pagar tais compromissos em dia. Isso não torna ninguém ruim; e aí temos que usar a passagem bíblica, segundo a qual “aquele que não tem pecados, que atire a primeira pedra”.

Milhões de brasileiros passam por isso, infelizmente. Advogando nessa área há quase 20 anos, já vi quase todo tipo de coisas.

E posso garantir: a grande maioria dos devedores é constituída por pessoas honestas.

No Brasil, existe a cultura da cobrança abusiva. Muitos credores – principalmente bancos, financeiras e empresas de telefonia – usam de todo tipo de expediente para cobrar o que chamam de “caloteiros”, mas que um dia foram chamados de CLIENTES.

O problema é que a forma dessa cobrança, na grande maioria das vezes, é ilegal e abusiva.

Os casos que colecionamos de abusos são assustadores. O mais grave, até hoje, foi o de um menino de cinco anos que atendeu a uma ligação de uma cobradora de uma financeira, quando sua mãe estava ausente de casa para tratar de assuntos ligados ao inventário de seu esposo, em decorrência de grave e traumático acidente automobilístico.

Perguntado pela cobradora onde estaria seu pai, que estaria atrasado com seus pagamentos em oito dias, o menino, com a voz embargada pelo choro de sua enorme perda recente, respondeu:

“- Papai morreu.”

Sem sequer alterar o tom de sua voz, ríspida e aparentemente robotizada, a cobradora perguntou pela mãe do menino. Quando informada de que a mãe encontrava-se ausente, informou ao menino:

“- Fale com sua mãe para ligar assim que chegar para a fulana (nome da cobradora), da empresa X (nome da financeira). Fale para ligar de qualquer jeito. Senão você, que já ficou sem pai, vai ficar sem mãe, também, pois ela vai ser presa.”

Nesse momento, todos que estão lendo essas palavras querem muito encontrar essa cobradora pessoalmente e lhe dizer “umas verdades”, correto?

Felizmente, não será necessário. Isso aconteceu há alguns anos. O menino hoje é um rapaz. A cobradora foi demitida por justa causa. Respondeu a processo criminal por crimes contra a criança e foi condenada. Tudo encaminhado por nosso Escritório, que orgulhosamente tomou todas as providências jurídicas à época do fato.

E, é claro, a financeira e a empresa da cobradora foram condenadas a indenizar a família por danos morais.

Esse caso me marcou. Dezenas de centenas de casos depois, ainda o tenho como o pior de todos. Mas é apenas o pior de uma sequência interminável de outros abusos, alguns tão graves quanto.

Ninguém retira de quem emprestou dinheiro ou concedeu crédito o direito de cobrar. Mas as leis definem que tais cobranças devem ocorrer de forma razoável, sem excessos e, principalmente, sem agredir a dignidade da pessoa ou de seus familiares.

Dívidas Inexistentes

Ainda pior que ser cobrado por uma dívida que fizemos é ser cobrado por uma que nem sequer existe. É como se a pessoa fosse acusada e condenada por um crime não cometido. Sem julgamento!

Apesar de tal prática ser absurda, acontece com absoluta frequência, principalmente a cobrança de dívidas já pagas. As empresas possuem sistemas de controle falhos e não dão baixa nos pagamentos dos clientes.

Como os ineficientes sistemas não baixam alguns pagamentos, os clientes tornam-se erroneamente inadimplentes e passam a ser cobrados por uma dívida que não existe.

Nesses casos, além de eventuais indenizações por danos morais, os consumidores lesados ainda podem receber os valores indevidamente cobrados em dobro, nos termos do Código Civil.

Dívidas Inexistentes e Cobrança Abusiva

Quando o errado encontra-se com o absurdo, o inferno aparece na Terra. A pessoa não deve e ainda é cobrada de forma abusiva e humilhante. Caso dos mais insanos e, lamentavelmente, comum na vida dos brasileiros.

Clientes são cobrados por uma dívida inexistente. Ligam para a empresa e, então, ou demonstram que pagaram o valor cobrado ou que sequer conhecem a empresa.

A cobrança não somente continua mas se intensifica e, em alguns casos, torna-se ainda mais agressiva e abusiva.

Vocês devem estar se perguntando como algo tão absurdo, tão imoral, pode acontecer. Sem prejuízo do descontrole dos sistemas de cobranças das empresas que vendem em massa, em nível nacional, a principal causa de tal fenômeno é uma crueldade quase igual ao caso do menino que perdeu o pai.

Estatisticamente, muitas pessoas cobradas por dívidas inexistentes acabam pagando, a fim de ficarem livres do assédio moral das empresas cobradoras. É um abuso que dá lucro.

Milhões irão reclamar. A empresa irá consertar alguns casos. Em outros, a empresa será processada e será, na grande maioria deles, condenada a indenizar as vítimas.

Infelizmente, todavia, muitos irão pagar. Por não suportarem mais suas vidas serem transformadas em um verdadeiro inferno.

Cuidados que devem ser tomados

Algumas precauções podem (e devem) ser tomadas para evitar as desagradáveis situações acima descritas.

Ainda que muitos recebam indenizações por danos morais, a cobrança abusiva é algo que se deve evitar.

As cobradoras levam a palavra abusiva a tais extremos que existem casos em que ocorrem verdadeiros traumas, tão graves que indenização alguma irá compensar.

Cobrança feitas a pessoas idosas, ofensas pessoais, injúrias, ligações para locais de trabalho, vizinhos; enfim, toda sorte de atrocidades pode surgir.

Além disso, alguns juízes ainda são, digamos, muito tímidos para penalizarem o tipo de empresa que pratica esse tipo de abuso, que muitas vezes acaba por se transformar em crime.

Evitem tais situações. Somente comprem o que de fato necessitarem, pois muitos acabam por se excederem em seus gastos mensais – ainda mais quando se aproxima uma data comemorativa como, por exemplo, dia das mães ou festas de final de ano.

Tomem muito cuidado com dívidas em cartões de crédito e cheques especiais. São bolas de neve prontas para atropelar a paz e sanidade de pessoas e famílias de forma cruel, e por muitos anos.

E, principalmente, guardem os recibos de tudo que pagarem pelo prazo de 5 a 10 anos. Muitas empresas ganham em cima da desorganização que muitos de nós acabamos tendo, e cobram por dívidas que já pagamos. Muitas vezes, de forma completamente abusiva.

Faça Provas do Seu Direito

Aos que forem recorrer à via judicial para apurar seus eventuais direitos, é muito importante a apresentação de provas dos abusos cometidos.

Guardem e-mails trocados com as empresas, imprimam telas de seus celulares, onde constem registros das repetitivas ligações das cobradoras e, se possível, gravem as ligações supostamente ofensivas, para que possam ser utilizadas nos processos.

Um procedimento simples adicional, mas que ajudará muito, é anotar os dados de todas as comunicações com as empresas cobradoras, ou call centers das empresas credoras, como nomes dos atendentes, datas, horários e números dos protocolos.

São passos que auxiliarão demais na formação do convencimento dos juízes que irão julgar seus casos, demonstrando, de forma clara, que a cobrança abusiva ultrapassou os limites do razoável e do decente, incorrendo no campo da ilegalidade passível de indenização.

Conhecer seus direitos sempre será a melhor forma de defendê-los!

André Mansur Brandão
Diretor-Presidente

ANDRÉ MANSUR ADVOGADOS ASSOCIADOS

Caso Uber: Vítimas da Ganância!

Profissão: Motorista de Aplicativo.

Será?

Impressionante como cresce o número de mulheres e homens que nos procuram em nosso Escritório, trazendo inúmeros casos de abusos praticados pela UBER contra os motoristas que se cadastram no aplicativo.

Desde que nossa empresa ganhou a primeira ação no Brasil contra a UBER, conseguindo o reconhecimento do vínculo empregatício contra essa gigante mundial, não param de chegar novos casos.

Completamente endividados, esses profissionais foram simplesmente descartados de forma abusiva e unilateral, sem receber quaisquer tipos de direitos.

Vítimas do chamado “canto da sereia”, foram atraídos por uma suposta promessa de parceria, mas se tornaram meras estatísticas da ganância de um sistema feito, apenas, para gerar o enriquecimento dos donos da UBER mundial.

Não há qualquer dúvida de que o sistema de transporte por aplicativos foi uma ideia genial.

Alocou milhares de profissionais mundo afora, além de tornar mais acessível a mobilidade urbana, favorecendo pessoas que, antes, não tinham acesso a um transporte de qualidade, principalmente se compararmos ao humilhante e ineficaz sistema de transporte coletivo de passageiros.

Será, todavia, que todos esses benefícios compensam o surgimento de uma autêntica “terra sem lei”, onde vale tudo?

Claro que não!

A forma como a UBER e outras empresas congêneres atuam mostra a face mais podre e cruel do sistema capitalista que não deu certo em lugar nenhum do mundo.

As mulheres e homens que transportam milhões de pessoas pelo mundo, todos os dias, não têm acesso a qualquer tipo de direito básico.

A UBER somente paga os direitos trabalhistas em juízo. Se for obrigada.

No plano contratual, inexiste qualquer respeito pelos contratos realizados, jogando na rua, em um piscar de olhos, seres humanos que se dedicaram a prestar, da melhor forma possível, um transporte de qualidade.

Não há qualquer tipo de estabilidade ou garantia. Basta um clique e o profissional está fora. Sem presente, sem futuro.

Sem direito a nada!

Muitos se endividaram e ainda se endividam para entrar na UBER.

Financiam veículos de qualidade, dentro das especificações exigidas pelo “aplicativo”. Alguns abandonaram empregos que, apesar de não serem ideais, tinham direitos minimamente garantidos.

A forma como a UBER exclui essas pessoas do sistema é desumana e unilateral.

Basta que a empresa, após uma reunião de gerência média, resolva reduzir em 1% (um por cento) seu efetivo nas ruas, por questões de mercado, milhares de trabalhadores são excluídos.

É absurdo, ilegal e surreal.

Pessoalmente, eu sou adepto do sistema capitalista. E, reitero: foi e sempre será uma grande ideia o uso desses aplicativos.

Não existe, todavia, lugar no mundo, para esse tipo de exploração da mão-de-obra de seres humanos. Não mais!

É desumano e repulsivo manter uma raposa faminta dentro de um galinheiro.

Indispensável que seja garantida uma estabilidade mínima a essas pessoas. Regras elementares, que garantam uma relação menos prostituída, menos promíscua, reduzindo as mazelas que estão sendo perigosamente criadas.

A UBER é assim no mundo todo.

Esse modelo dá certo, até que governantes e juízes bem intencionados entendam a gravidade dessa abjeta relação e adotem medidas de contenção da ganância desenfreada.

Recentemente, o Tribunal Regional do Trabalho da 2a Região, de São Paulo, seguindo a mesma linha da tese que sempre defendemos, reconheceu os direitos trabalhistas dos motoristas de aplicativos.

Foi uma dura pancada nas ambições da UBER, no Brasil, pois se trata da primeira decisão advinda de um tribunal. Sua força é enorme, ainda mais por ter sido prolatada por um tribunal do maior estado da América do Sul.

Ainda falta muito.

Não há dúvidas, entretanto, de que justiça brasileira começa a entender pela necessidade de humanizar a relação da UBER com nossos cidadãos.

Tal fenômeno passa pelo reconhecimento da clara relação de trabalho existente, materializada através do vínculo empregatício inquestionável, que faz surgir para seus titulares a necessidade de proteção de seus direitos.

E olha quem nem falamos, ainda, das maiores vítimas desse sistema: os taxistas!

Mas isso, fica para outra oportunidade.

Fiquem com Deus!

Conhecer seus direitos é a melhor forma de defendê-los!

André Mansur Brandão
Diretor-Presidente

ANDRÉ MANSUR ADVOGADOS ASSOCIADOS

 

Usar Celular Carregando na Tomada Pode ser Fatal!

VIDAS EM RISCO! RISCO DE MORTE!

 Levem isso a sério, antes que se lamentem para sempre!

Que usar o aparelho celular ligado na tomada pode matar, a grande maioria das pessoas sabe. Poucos levam isso realmente a sério, mas que sabem, sabem.

O que poucas pessoas têm ideia, todavia, é como é dolorosa a morte por descarga elétrica. Ou como é quase insuportável a vida de quem a esse tipo de “acidente” sobrevive.

No último dia 15 de junho de 2018, um jovem faleceu na cidade de Taubaté (SP), após sofrer nove paradas cardíacas. Vou repetir: NOVE!

Para que as pessoas tenham noção exata da dor, ao contrário do que muitos pensam, os problemas no coração, que matam pessoas, nada possuem de indolores.

Uma das mais graves emergências cardiológicas, a dissecção da artéria aorta, provoca uma dor descrita, pelos poucos que a ela sobrevivem, como LANCINANTE. Para que ninguém tenha de procurar no dicionário ou no Google o significado dessa palavra, posso dizer que é o equivalente a uma sessão de tortura. Algo que beira os limites do insuportável.

Agora imagine a dor que esse jovem deve ter sofrido após NOVE PARADAS cardíacas. Isso sem contar que as tentativas de ressuscitação são igualmente agudas e dolorosas, pois os aparelhos usados provocam queimaduras muito sérias.

Quando a pessoa consegue sobreviver, após o longo processo de recuperação, repleto de dores físicas e psicológicas, sequelas são corriqueiras.

E tudo isso por conta de algo que poderia ser evitado de forma muito simples.

Eu já vi muitas pessoas, inteligentes de verdade, usando celulares durante o carregamento. Pessoas inteligentes com esse estúpido e mortal hábito, que pode levar à morte, a mutilações ou a uma vida cheia de limitações.

Usar celular ligado na eletricidade MATA ou FERE. Ambos, de forma DOLOROSA!

E, principalmente, DESNECESSÁRIA!

Carregadores e Acessórios de Má Qualidade

Quem já não procurou uma “alternativa mais barata” na hora de comprar acessórios para nossos celulares?

Eu mesmo, vou confessar. Já fiz isso mais de uma vez. E justamente por isso, posso afirmar, por experiência própria e com toda a convicção, que esse hábito pode ser muito perigoso.

Os originais são caros demais. Um carregador original pode custar até cinco vezes mais do que um de “outras marcas” ou “usado, com garantia”.

Comprei o “de outra marca” e por pouco não me saiu muito, mas muito mais caro!

E, o que é muito pior: um incêndio poderia ter se iniciado em meu apartamento, com consequências trágicas.

Sempre ando com dois celulares, devido à profissão. Coloquei um deles para carregar e desci para a garagem. Dentro do carro, atendi um cliente, o que me consumiu cerca de uns 10 minutos.

Quando fui dar a partida no carro, por “sorte”, percebi que tinha esquecido minha pasta de trabalho e voltei para buscar. Devido ao tempo em que fiquei na garagem, cerca de 15 minutos, fui ver qual era o percentual que já tinha carregado do outro celular (quem nunca fez isso?) e, para minha perplexidade, o celular estava tão quente que quase queimou a minha mão.

Um forte cheiro de queimado impregnava o meu escritório de casa e já se fazia sentir em outros ambientes do meu apartamento. Se eu não tivesse voltado…

Mãos molhadas ao manusear dispositivos eletrônicos  

Quem nunca saiu do banho, ainda secando o corpo, e correu para atender o telefone ou, simplesmente, para conferir as mensagens?

Esse hábito tão comum é muito perigoso. Mesmo que o aparelho não esteja na tomada, o simples fato de o nosso corpo estar molhado ou de estarmos descalços pode fazer com que tomemos uma descarga elétrica que, mesmo pequena, pode causar graves males à saúde ou agravar algum problema cardíaco que porventura tenhamos.

Isso ocorre porque o corpo humano é um grande condutor de eletricidade, ainda mais molhado, ou em contato direto com o solo.

É, sim, possível, que uma pequena descarga elétrica provoque graves danos, podendo chegar, em alguns casos, à morte.

E ninguém quer morrer por conta de uma futilidade, correto?

Se você está lendo, agora, esse meu apelo, não somente leve a sério, PARANDO IMEDIATAMENTE com esses terríveis hábitos, mas, principalmente, avise aos seus amigos.

Por favor!

André Mansur Brandão
Diretor-Presidente

ANDRÉ MANSUR ADVOGADOS ASSOCIADOS

Conversão de tempo especial em comum

Prestem muita atenção neste artigo, pois o conteúdo pode mudar suas vidas.

Muitos sabem que quem trabalha em condições especiais, exposto a calor excessivo, agentes químicos, radiação, enfim, exercendo suas atividades em locais insalubres ou perigosos, tem direito a um tipo especial de aposentaria.

Os danos que tais atividades podem provocar nas pessoas que as exercem são muito graves, motivo pelo que a lei criou um modelo diferente para diminuir os impactos de tais agentes nocivos na vida das pessoas, reduzindo, e muito, o tempo necessário para se requerer esse tipo de benefício (15, 20 e 25 anos, dependendo de cada caso).

O que muito pouca gente sabe, todavia, é que não é preciso trabalhar todos esses anos acima para poder ser beneficiado.

É possível requerer a conversão de todo o tempo trabalhado nas chamadas condições especiais para tempo comum, proporcionando a antecipação de sua aposentadoria.

Vou explicar através de um exemplo bem simples. Imaginem um trabalhador que poderia se aposentar com 25 (vinte e cinco) anos de atividade especial, mas exerceu somente por 15 anos essas atividades classificadas como especiais.

Agora, vamos supor que esse mesmo trabalhador tenha trabalhado mais 15 anos em atividades comuns, normais. A soma dos dois períodos daria 30 anos, correto?

Errado!

Nesse caso, no tempo chamado “especial”, seria aplicado o coeficiente de 1,4 (para homens) e de 1,2 (para mulheres), aumentando a contagem dos tempos em 6 (seis) e 3 (três), anos respectivamente, para homens e mulheres.

Assim, nesse caso, a pessoa do exemplo acima poderia se aposentar por tempo de contribuição, bem antes do que seria se o tempo especial não fosse considerado.

Esqueçam os números!

Guardem somente uma informação: o tempo trabalhado em condições consideradas especiais pode e deve ser usado para fins de contagem de tempo por todos que nessas condições trabalharam, ainda que não tenha sido pelo tempo total que a lei estipula.

Ficou claro?

Bom, esta é a boa notícia.

A má notícia é que o INSS não costuma reconhecer administrativamente essa conversão, negando a conversão do tempo, sendo necessário entrar na Justiça.

A justificativa para negar é que a utilização dos chamados Equipamentos de Proteção Individual – os chamados EPIs neutralizam os riscos que as condições de insalubridade e de periculosidade causam à segurança e à saúde dos trabalhadores.

A solução, infelizmente, acaba indo para a via judicial, que tem sido bastante favorável aos trabalhadores e segurados.

Recentemente, a Turma Nacional de Uniformização de Jurisprudência dos Juizados Federais – TNU, que analisa os casos previdenciários de valores inferiores a 60 (sessenta) salários-mínimos, reconheceu o caráter especial de atividades exercidas até 1998, computando o tempo em favor dos trabalhadores.

Diversas outras decisões judiciais têm beneficiado muitas pessoas pelo Brasil afora, permitindo a conversão do tempo especial em comum, proporcionando uma razoável antecipação do momento de se aposentar.

Assim, se você trabalha ou já trabalhou nas chamadas atividades especiais e não converteu o tempo para comum, pode ter o direito de se aposentar ou, até mesmo, ter direito a revisões muito interessantes no cálculo de seu benefício, caso já tenha se aposentado.

Abaixo, citamos algumas das atividades que podem ser consideradas especiais. Se exerce ou já exerceu uma delas, fique atento.

Conhecer seus direitos é a melhor forma de defendê-los!

Desejando saber mais ou receber mais dicas jurídicas, entre em contato conosco.

André Mansur Brandão
Diretor-Presidente

ANDRÉ MANSUR ADVOGADOS ASSOCIADOS

IGREJA VAZIA

Sou católico de batismo. Desde pequeno, minha mãe e minha madrinha sempre me levaram à missa. Como era muito novo, e por não compreender muito o que os padres diziam, eu não gostava de ir. Era comum eu ir “obrigado”, sempre com as tradicionais ameaças de corte de TV, brincadeiras e outras coisas que crianças gostam. Mas eu sempre acabava indo.

Minha madrinha teve uma ideia: arrumou algo para eu fazer antes, durante e após as missas. Eu comecei a distribuir os roteiros da missa, recolhê-los, fazer pequenos serviços durante a celebração, que reduziram muito o meu tédio de estar num lugar onde eu não entendia nada que estava sendo dito, por um homem com roupas estranhas, que falava para uma multidão pouco atenta. Mas uma coisa eu nunca consegui evitar: apesar do tédio, o ambiente da igreja católica fazia-me muito bem. Muito mesmo! Havia algo ali que era bom, muito bom!!!!!!!!!

O tempo passou. Por influência de uma de minhas irmãs, durante dois anos de minha adolescência, passei a frequentar uma igreja evangélica. No início, eu adorava. A dinâmica era outra. Era muito mais, digamos, divertido. Não tinha toda aquela pompa da missa católica. O ambiente era mais descontraído. No lugar do padre sério e imponente, havia um pastor, que mais parecia um animador de auditórios dos programas de domingo. Até as músicas eram cantadas de uma forma diferente, sem aquele tom sacro tão peculiar ao canto católico. Isso, aliado aos animados acampamentos dos quais participava, proporcionaram-me momentos incríveis durante aqueles abençoados dois anos. O problema é que eu estava na adolescência …

A criança nasce! Quando começa a balbuciar as primeiras sílabas, aprende rapidamente as duas principais palavras que, na forma de uma interrogação, irão acompanhar o ser humano por toda a sua vida: por que?

E ninguém melhor do que os adolescentes para usarem estas palavras de forma quase incontrolável, pois é nessa fase que surgem os primeiros grandes questionamentos de nossas vidas. Assim, com todo o respeito que as igrejas evangélicas merecem (e merecem mesmo), eu não conseguia entender ali várias coisas e, naturalmente, afastei-me dos cultos e dos acampamentos.

Voltei a frequentar esporadicamente as missas católicas. O espaço entre uma ida e outra começou a aumentar, tanto que passei a ser o que popularmente se intitula de “católico de fundo de igreja”. Com o tempo, parei de vez.

Aos meus 17 anos, tive o que muitos poderiam chamar de epifania. Para que ninguém tenha de interromper a leitura e ir pro google, epifania é a manifestação da divindade, uma espécie de “toque” de Deus. E Deus realmente tocou-me naquele dia…

———————————————————————————————————-

Eu fazia um cursinho preparatório para um grande concurso. Uma possível aprovação, segundo me disseram, proporcionaria-me pleno sucesso profissional e financeiro. Eu poderia realizar todos meus sonhos de consumo. Além disso, minha família, que sempre sofreu tanto para me proporcionar o que havia de melhor em termos de estudo, poderia ter muito mais qualidade de vida, mais conforto, mais lazer… Minha família poderia ter mais!

A empreitada tinha dois obstáculos aparentemente intransponíveis. O primeiro, era o fato de tratar-se de um dos mais difíceis concursos do país, com mais de quatrocentas mil pessoas inscritas para concorrer às poucas vagas. O segundo, e mais preocupante, era o fato de que, por ter apenas 17 anos, eu nem poderia inscrever-me, pois o concurso tinha como idade mínima 18 anos. E isso me fazia sofrer muito. Sofria pela preparação, e sofria pela incerteza de poder ou não fazer a prova!

Naquele dia, eu voltava do cursinho, cansado e desanimado. Fui surpreendido por uma chuva intensa, muito forte mesmo. Comecei a correr e advinhem qual foi o único lugar aberto que eu encontrei para me esconder? Ganhou um prêmio quem disse “uma igreja católica”!

Exatamente. Uma linda, quentinha e aconchegante igreja católica. E, o que era mais incrível, totalmente vazia. Imponente e vazia! Se existe um paraíso, naquele momento aquele era meu paraíso.

Eu já havia conversado com Deus antes. Só que normalmente o fazia em minhas formais orações. Naquele dia, eu e Deus tivemos uma conversa séria, de Pai para filho. Ou melhor, de filho para Pai!

Perdi meu pai biológico quando eu tinha pouco mais de um ano de vida. Morreu de câncer, aos 40 anos de idade. O conheci por fotos, cartas e objetos. Sua fama de honestidade encheu-me de orgulho no início de minha vida profissional, quando encontrei com alguns de seus ex colegas de trabalho. Ele era do ramo de seguros, mas tinha um hobye incrível naquela época: era piloto de aviões!

Por alguma razão que nunca vou entender, todos os dias dos pais e no dia de finados, ainda choro sua morte. Ou melhor, choro sua ausência. Não sei como a minha vida estaria se ele ainda estivesse vivo. Mas eu adoraria passar nem que fosse uma única hora em sua companhia.

Naquele dia, naquela igreja vazia, eu chorei! Chorei de tristeza. Chorei de ansiedade. Chorei de saudades. Questionei a Deus o porquê da ausência de meu pai. O porquê da luta tão árdua de minha mãe, dando aulas em três turnos, em três favelas, para nos criar. Quanta dificuldade estávamos passando. Teria sido mais suave a vida de minha mãe e de minhas irmãs se meu pai ainda estivesse vivo?

E, em meio às minhas lágrimas, em meio a meu pranto, e no auge de minha revolta, senti o “toque de Deus”! Com a sabedoria e carinho que só a divindade maior possui, naquele momento senti-me protegido e reconfortado. Senti que Ele, Deus, estava comigo nos braços. E senti que Ele estaria comigo para sempre!

Não consigo imaginar como é possível alguém não acreditar em Deus! Questionar Sua presença, sua força, sua bondade. Na verdade, em Deus, não se acredita. Apenas, sente-se! Vive-se!

Negar Deus é impossível. Se o mais vigoroso ateu cair em uma cisterna profunda, quando se esvairem todas as tentativas racionais de sair de lá, quando ele se sentir alquebrado, sozinho e sem esperanças, quando nada mais lhe restar, certamente ele erguerá suas preces a Deus. E este mesmo Deus, negado pelos racionalistas, levará a salvação, seja pelo resgate de sua criatura, seja pelo conforto de sua alma!

Deus me deu tudo o que tenho. E me deu tanto, que talvez eu tenha de passar o resto de minha vida e por toda a eternidade agracendo-lhe! Minha família, meu filho, meu ofício, meus sonhos, meus projetos … Deus é perfeito!

O tal concurso, querem saber o que aconteceu? Passei. E já saí do tal “emprego perfeito” para realizar o meu sonho de advogar. A saudade de meu pai ainda continua forte, mas ela vem hoje temperada com o prazer de ser pai de um filho lindo, perfeito! Quando choro de saudades, choro também de alegria, por Deus ter me dado esta benção tão grande que é ser pai.

Hoje, tantos anos após, sinto que fiz um pacto com Deus naquela tarde chuvosa. Nem tudo que sonhei, nem tudo que eu quis ou ainda quero, Deus me deu, todavia.
Obtive Dele, naquela epifania, no momento em que fui tocado por Ele, a garantia de que todos os meus questionamentos serão respondidos. Ainda que, às vezes, a resposta seja NÃO!

Obrigado Senhor!

André Mansur Brandão
Advogado